Meu arquivo afetivo de olhares sobre o cinema
Se as cinematecas guardam os filmes, esta aqui guarda o olhar de Martha El Debs.
Um olhar inquieto, que assiste, pensa, atravessa e é atravessado.
Aqui, cada crítica é mais que opinião: é escavação.

Você é meu convidado a entrar, ler, revisitar e sentir.
Que este seja também o seu arquivo: de emoções, pensamentos e imagens que ficaram.

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CINEMARTHECA: Mad Men e o Direito Notarial e Registral
O que a publicidade constrói, o registro preserva ou corrige. Uma leitura jurídica da série.
Por Martha El Debs

Tenho procurado a DEGUSTAÇÃO, um jeito de consumir o que vejo, leio e escuto. Em vez de engolir tudo rápido, tenho escolhido aquilo que pede tempo, atenção, presença. Coisas para saborear, não para riscar da lista.

Para degustar, nao maratonar.

Recentemente assisti a Mad Men. Obra-prima para destrinchar cada episódio. Em vez de querer passar para o próximo, eu sentia uma imensa vontade de estudar, entender, pesquisar o contexto daquela época.

E que série magistral!

A trama se passa nos anos 1960, nos corredores da Sterling Cooper, uma agência de publicidade em Nova York. No centro está Don Draper – diretor de criação brilhante, sedutor, atormentado. Um homem que vende sonhos para o mundo inteiro enquanto esconde uma identidade que não lhe pertence.

Mad Men é uma série sobre publicidade. Mas é muito além disse. É uma radiografia da América do pós-guerra: o triunfo da aparência sobre a substância, da narrativa sobre a verdade, do desejo sobre a realidade. Cada campanha publicitária é, na verdade, uma mentira elegante e cuidadosamente embalada para parecer verdade.

E foi exatamente aí que algo me chamou atenção.

Enquanto assistia, não conseguia deixar de pensar no Direito Notarial e Registral, aquele ramo do direito que existe precisamente para fazer o oposto do que Mad Men celebra: fixar a verdade, garantir a identidade, dar permanência aos fatos jurídicos.

Achei pertinente e inevitável fazer esse paralelo.


1. IDENTIDADE, NOME E VERDADE: DON DRAPER COMO “REGISTRO FALSIFICADO”

• A função do registro civil como garantidor da identidade verdadeira;

• A ideia de que o nome não é mero signo, mas um atributo jurídico da personalidade.

• O risco social da dissociação entre verdade registral e verdade fática um.


Don é o retrato do que acontece quando a fé pública falha: o mundo funciona, mas a verdade cobra a conta depois.


2. APARÊNCIA X SUBSTÂNCIA: A PUBLICIDADE E A FÉ PÚBLICA

A publicidade de Mad Men vende narrativas; o registro fixa realidades. Enquanto a agência cria discursos persuasivos para convencer, o notário e o registrador:

• Não seduzem;

• Não interpretam criativamente;

• Atestam, qualificam e publicizam.


Mad Men mostra um mundo em que a aparência substitui a essência. O direito notarial e registral existe exatamente para conter esse risco, criando um espaço institucional onde: não importa o quão boa seja a história, importa se ela é verdadeira, válida e oponível a terceiros.


3. TEMPO, MEMÓRIA E PERMANÊNCIA

Uma campanha, via de regra, nasce para morrer.

O registro nasce para permanecer.

Esse contraste é central:

• Mad Men vive da novidade, do impacto imediato;

• O notário e o registrador é, em certo sentido, o anti–Mad Man: trabalha para que o tempo não apague, não distorça e não reinvente os fatos jurídicos.


4. PODER SILENCIOSO

As publicidades de Mad Men são feitas para convencer. Os atos do notário e o registrador, para validar.

Mad Men glorifica o poder da palavra; o direito notarial e registral revela o poder do ato corretamente formalizado.


5. CRISE MORAL E FUNÇÃO INSTITUCIONAL

A série é atravessada por crises pessoais, éticas e existenciais.

O direito notarial e registral surge justamente para retirar o indivíduo do centro e proteger a coletividade.

Onde Don Draper decide sozinho quem ele é, o sistema registral responde: identidade, propriedade e vontade não são escolhas narrativas, são fatos juridicamente estruturados.


6. A GRANDE IRONIA

Mad Men mostra um mundo em que tudo pode ser reinventado.

O direito notarial e registral existe para lembrar que nem tudo pode nem deve ser.

Se a publicidade cria desejos, o registro cria limites confiáveis para que a sociedade funcione sem colapsar.


EM SÍNTESE

Mad Men é o elogio da construção simbólica.

O Direito Notarial e Registral é a defesa da verdade institucionalizada.

Um vive da narrativa.

O outro, da fé pública.




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